" em krufurstenstrasse, nosso vendedor habitual nos reconheceu de longe. ele foi a uma rua mais distante, até um canto tranquilo. comprei quarenta marcos. estava decidida a tomar minha primeira picada. quando apenas cheiramos, partimos lentamente; mas quando nos picamos, a partida é como um foguete. já ouvira alguém da turma comparar esta diferença com um orgasmo e eu também queria prová-la. sem mais me atolaria na merda, decidi experimentar.
fomos a um banheiro público do lado de postdamer strasse. um lugar imundo. em frente ao banheiro encontra-se montes de mendigos. os bêbados iam dormir ali. distribuimos um maço de cigarros. eles já sabiam e nos observavam.
uma menina do soud, tina, nos acompanhou. detlef tirou seus objetos de um saco plástico: seringa, colher, limão. pôs a heroína na colher, juntou um pouco de água e de suco de limão. assim, a coisa, que não era completamente pura, dissolvia melhor. ele esquentou a heroína com um isqueiro e encheu a seringa. era uma velha seringa descartável. uma sujeira repugnante com uma agulha completamente rombuda. detlef se picou primeiro e depois foi a vez de tina. depois a gulha estava completamente entupida, inutilizável. ao menos foi o que os dois disseram. talvez para impedir de me picar, mas minha vontade aumentou.
um outro viciado também veio se picar no banheiro. uma cara na pior, no último estágio da descadência. pedi-lhe que me emprestasse seus utensílios. ele topou. mas, bruscamente, me repugnou terrivelmente a idéia de enfiar a agulha na veia. eu simplesmete não conseguia enfiá-la, embora soubesse como, pois já havia os outros fazerem, muitas vezes. detlef e tina não se importavam comigo. fui obrigada a pedir ao cara que me ajudasse. claro que ele compreendeu imediatamente que era minha primeira picada. senti-me consideravelmente idiota diante daquele viciado experimentado.
ele me disse que era nojento, mas pegou a seringa. como minha veias estavam pouco à vista, teve dificuldades de encontrar uma. ele tentou três vezes antes de conseguir puxar um pouco dse sangue. reclamando, uma vez mais, que achava isso nojento, me injetou quase toda a dose.
parti como um foguete, mas não era assim que imaginava um orgasmo. e logo via um nevoeiro, mal percebia o que se passava à minha volta e não pensava em nada.
fui ao sound, sentei-me em um canto e bebi um suco de frutas.
detlef e eu estávamos agora em igualdade. estávamos juntos para sempre, como um casal. exceto que não dormíamos juntos. não tinhamos nenhum contato sexual. ainda não me sentia bastante madura para isso e detlef aceitou sem muitos discursos. também por isso eu o achei formidável. era um tipo muito legal. um dia, sabia muito bem, dormiria com ele, estava feliz de nunca ter feito nada com outro rapaz, estava segura que íamos ficar juntos. saindo do sound, detlef me acompanhou à pé, até minha casa. eram duas horas de caminhada. depois geralmente ele pegava carona para voltar para sua casa. ele vivia com o pai.
conversamos um montão de coisas completamente loucas. perdi todo senso de realidade. pra mim a realidade era irreal. não tinha projetos, mas sonhos.
a minha conversa preferida era imaginar o que faríamos, detlef e eu, se tivéssemos bastante dinheiro. compraríamos uma casa grande, um carrão, móveis, tudo de muita classe. sonhávamos com um monte de coisas, menos com heroína. "
13 outubro, 2004
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