cristiane f. clique para ampliar
1º trecho: " como não pude perceber o que estava acontecendo com minha filha christiane"
" esta pergunta fiz eu a mim mesma por diversas vezes. a resposta talvez fosse simples, mas tive que conversar com outros pais para poder aceitá-la. não queria de forma alguma reconhecer que christiane se transformara numa viciada em drogas. enquanto pude, fechei oso olhos para não enxergar! meu companheiro - o homem com quem vivo após o meu divórcio - há muito tempo que vinha suspeitandoo de algo, mas eu sempre lhe dizia: 'você está imaginando coisas; ela não passa de uma criança'.
o erro mais grave dos pais é o de sempre desejarem que os filhos ainda não chegaram a esse ponto. eu deveria ter feito alguma coisa quando christiane se isolava cada vez mais do convívio do lar, mas não fiz nada. simplesmente aceitava a realidade.
não há dúvida que quando trabalhamos fora não podemos dar aos nossos a atenção que eles precisam. minha filha muitas vezes voltava tarde para casa, mas como sempretinha uma boa justificação, eu me limitava a acreditar; quanto à sua rebeldiaachava-a própria da idade.
nunca quis pressionar christiane por não desejar que ela passasse o que eu passara na minha adolescência. meu pai era um homem extremamente severo e a sua maneira de educarse resumia a estabelecer proibições. só o falar em rapazes já era motivo para lever uma bofetada. havia minha mãe, sim, que era uma santa criatura, mas que não era ouvida para nada. meu pai nem sequer me deixou escolher uma profissão! ao meu primeiro namorado - com quem vim a me casar - meu pai nem deixava vê-lo. as coisas eram tão difíceispara mimque só tive uma saída para adquirir independência: ficar grávidae ser assim obrigada a casar.
o meu casamento foi, porém, um fracasso total, mas só em 1973 acabei por adquirir a coragem, que sempre me faltara, para requerer o divórcio.
eu desejava preservar christiane de tudo quanto passei. quando do seu nascimento, fiz até um juramento: 'minhafilha não se casará com o primeiro que aparecer só para sair de casa'. queria ser uma mãe moderna e, afinal e talvez por isso, me tenha revelado uma mãe permissiva.
uma vez divorciada desejei que tudo mudasse. pensei em montar um pequeno apartamento para as três: christiane, sua irmãzinha e eu. meu trabalhoprofissional me possibilitava realizar tal sonho. queria poder-lhes comprar pequenas mas frequentes lembranças, roupas bonitas e sair com elas nos fins de semana.tudo issofui conseguindo e até 1995 pude comprar um aparelho de som para christiane que era seu maior sonho.
hoje sinto tudo o que fiz foi aliviar minha consciência pelo fato de nã lhes ter dado a atenção, o carinho e o amor que os filhos precisam.reconheço que também fui muito egoísta pois podia ter vivido do auxílio famíliae dado muito mais assistência às minhas filhas. como meus pais me havia ensinado a não sere parasita do estado, entendia que as lembranças e as roupaspodiam substituir a minha presença contínua.
nunca me passou pela cabeça que christiane fosse enveredar pelos piores caminhos, apesar de saber o que se passava no conjunto gropius. eu acreditava, verdadeiramente, que tudo ia bem. pela manhã elas estavam na escola, preparavam o almoço quando voltavam para casa e passavam muitas tardes no ponney-club, pois as duas tinham verdadeira paixão pelos animais.
durante algum tempo tudo decorreu com relativa normalidade, apesar de cenas eventuais de ciúmes entre as crianças e klaus, meu companheiro. eu queria estar disponível para ele, pois de certa forma era ele meu ponto de equilíbrio. aí cometi, também, um grande erro que só agora reconheço. é que, para melhor me dedicar a klaus, deixei quea irmã de christiane fosse morar com o pai, meu ex-marido.
naturalmente que christianese sentiu só e, sem que eu me apercebesse, começou a andar em mas companhias. passava as tardes com uma amiga, kessi, me parecia boa menina. aliás, tanto a mãe de kessi como eu mesma, sempre que possível, ficávamos de olho nas duas. nessa época christiane estava com doze a treze anos, idade em que os jovens querem descobrir a vida e, por isso, eu não via mal algum em que ela frquentasse o centro de jovens. o que nunca admiti, sequer, é que uma organização dirigida pela igreja evangélica fosse um antro de maconha.
christiane, que pela ausência da irmã ficou uma menina triste, voltou porém a sorrir após conhecer kessi. por vezes ela dizia bobagens com tanto entusiasmo que até eu não podia deixar de rir.
mal advinhava, no entanto, que a sua alegria e as suas gargalhadas contagiantes eram efeitos da maconha ou de outra droga."

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