25 agosto, 2004

pequeno trecho do livro que narra sua infância.



CHRISTIANE VERA FELSCHERINOW

"... desde pequenina eu já gostava muito de animais. na nossa família, todo mundo gostava. uma verdadeira paixão. eu me orgulhava disso: nenhuma outra família, que eu saiba, gostava tanto de animais. eu sentia pena das crianças cujos os pais não queriam animais em casa. nosso apartamento de dois cômodos, tornou-se, pouco a pouco, um verdadeiro zoológico. tinha quatro ratinhos, dois gatos, dois coelhos, um canário, além de ajax, nosso cachorro pardo, que trouxemos da roça. ajax ficava sempre ao lado de minha cama. quando eu dormia, deixava um braço para fora das cobertas para me assegurar de sua presença. conheci crianças que também tinha cachorros. com essas eu me dava muito bem. descobri que em rudow, não muito longe da cidade, ainda restava um pouco da natureza pura. dali em diante era para lá que íamos com nossos cães. brincávamos em antigos depósitos de lixo, agora recobertos com terra. nossos cães brincavam sempre com a gente. nossa brincadeira preferida era o'caçador': um se escondia enquanto os outros seguravam seu cachorro. aí o animal devia encontrar seu dono. era o meu ajax que tinha o melhor faro. meus outros bichinhos, eu os levava aos montes de areia ou mesmo à escola. a professora usava-os como material de observação para o curso de biologia. às vezes eles me deixavam até ficar com ajax na sala de aula. ele ficava deitado aos meus pés, imóvel, sem perturbar, até que a campainha anunciasse o recreio. graças aos bichos, eu seria bastante feliz se as coisas não andassem de mal a pior com meu pai. minha mãe trabalhava. ele ficava em casa. o projeto da agência de matrimônios foi por água abaixo. meu pai esperava que alguém lhe propusesse um trabalho à sua altura. e suas explosões de raiva eram cada vez mais frequentes. à noite, quando voltava do seu trabalho, minha mãe me ajudava a fazer os deveres da escola. durante certo tempo, tive dificuldades em distinguir a letra h da letra k.
minha mãe me explicava com paciência santa, mas eu mal conseguia ouvi-la, pois sentia que a raiva de meu pai aumentava. já sabia o que iria acontecer: ele iria até a cozinha, pegaria uma vassoura e me bateria. depois era preciso que lhe dissesse a diferença entre h e k. é claro que eu ficava confusa, misturava tudo, conquistava o direito a uma bofetada suplementar e, em seguida, me mandavam pra cama. essa era a sua maneira de me ajudar a fazer os deveres escolares. ele queria que eu fosse boa aluna, que fosse 'alguma coisa na vida'. afinal de contas, seu avô tinha muito dinheiro e, entre outras coisas, era proprietário de uma gráfica e de um jornal. após a guerra foi expropriado pela r.d.a. (república democrática alemã). por tudo isso, meu pai ficava furioso quando percebia que na escola as coisas não estavam indo bem. até hoje eu me lembro de certas noites nos seus mínimos detalhes. certa vez, a lição era desenhar umas casinhas no caderno de cálculo: seis quadrinhos de largura e quatro de altura. eu já tinha feito uma e sabia muito bem como me virar. de repente, meu pai sentou-se ao meu la-do. aí ele me perguntou o tamanho da próxima casinha. tinha tanto medo que nem contei os quadrinhos e respondi sem pensar. errei e recebi uma bofetada. em seguida, chorando, era incapaz de responder a uma pergunta. ele se levantou pra buscar o chicote de borracha. sabia o que isso significava. ele segurou o cabo de madeira e pimba naminha bunda, até que fiquei em carne viva. começava a tremer cada vez que sentava à mesa: se fazia qualquer sujeira, era um drama; se derrubava qualquer coisa, cuidado com a bunda. eu mal conseguia engolir um copo de leite. em quase todas as refeições tinha muito medo de que me acontecesse uma desgraça...todas as noites perguntava, com muito jeito, ao meu pai se ele iria sair. ele saía sempre e nós, as três mulheres, respirávamos aliviadas. essas noites eram maravilhosamente tranquilas. é verdade que quando ele voltava, aconteciam coisas que estragavam tudo. na maioria das vezes, ele voltava bêbado. qualquer pretexto, brinquedos ou roupa fora do lugar. motivava uma explosão. uma das expressões favoritas de meu pai era que o importante na vida é ter ordem. e se, voltando bem no meio da noite, ele pusesse na cabeça que minhas coisas estavam em desordem, ele me tirava da cama e me dava uma surra. e depois era a vez da minha irmazinha. em seguida ele jogava tudo no chão e nos dava cinco minutos para arrumar tudo de forma impecável. em geral não conseguia fazê-lo em tempo e chovia nova pancadaria. na maior parte das vezes minha mãe assistia à cena de pé, na entrada do quarto, chorando. era raro ela tomar nossa defesa, pois ele batia nela também. só ajax, minha cadela, intervia, às vezes. ela começava a gemer, com um olhar cheio de tristeza. era ela que melhor sabia colocar meu pai na linha porque, como todos nós, ele gostava muito de cachorro. podia acontecer de ele dar uma bronca em ajax, mas ele nunca bateu nela. apesar de tudo isso, amo e respeito meu pai. eu o acho muito superior aos outros. tenho medo dele, mas, somando tudo, seu comportamento parece normal. as outras crianças do conjunto gropius não tinham melhor sorte...eles tinham cada pai e mãe canalhas! encontrávamos alguns pais caídos bêbados no meio da rua ou no terreno em que brincávamos. meu pai nunca bebia até esse ponto. às vezes assistíamos o espetáculo de móveis voando pela janela e espatifando-se na rua, as mulheres gritando por socorro e alguém chamando a polícia. no nosso bairro, isso não era assim tão grave."
___________________________________________________________________
leia o livro:
"Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituida..."
- Difusão Editorial

on line:
http://christianef.blig.ig.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário